O Toyota GT86 é o carro capaz de proporcionar mais prazer de condução que se pode comprar por 40 000 euros, mas será um carro melhor que o Peugeot RCZ 2.0 THP 200 Asphalt ou o VW Scirocco 2.0 TSI DSG Sport? Será que o especialista vence as adaptações?

As principais reações no nosso concorrido e diversificado fórum (o ensaio do GT86 suscitou um tópico de 12 páginas sob o tema diversão versus eficácia) criticam o elevado preço pedido pelo GT86 em Portugal. Este confronto com o Peugeot RCZ 1.6 THP 200 cv Asphalt (40 600 euros) e o VW Scirocco 2.0 TSI 210 cv DSG Sport (41 209 euros) serve para ver como se porta um carro único e especial frente a duas das melhores adaptações desportivas de plataformas compactas disponíveis, também, na casa dos 40 mil euros.

Por outras palavras, o GT86 foi pensado, projetado e construído para proporcionar o mais puro prazer de condução, todos os dias, a custo controlado, enquanto o RCZ e o Scirocco viram os seus modelos base (308 e Golf) bastante modificados para criarem propostas capazes de proporcionar experiências de condução mais desportivas e despertarem laços emotivos que estão para lá do que os competentes (mas cinzentos) do 308 e do Golf podem ambicionar.

A importância de parecer especial
Dois anos após o seu lançamento, o Peugeot RCZ não perdeu a sedução, continuando a fazer virar cabeças, mantendo intacta a sua maior qualidade: parece muito mais do que aquilo que é. De facto, lado a lado com o Toyota GT86 parece muito maior e mais pesado, ao passo que o “alto” Scirocco dá ares de ser uma espécie de veículo “preparado” para todo o terreno... Rasteirinho, e nitidamente menos largo que o Peugeot ou o VW, o GT86 parece estar uma escala abaixo destes e, mesmo parado, passa a mensagem de ser muito mais ágil.

O resto são gostos mas o Toyota é o que emprega soluções de engenharia mais elaboradas: centro de gravidade ultrabaixo; tração traseira com autoblocante Torsen; suspensão traseira de triângulos sobrepostos; alimentação por injeção direta e indireta. Perante isto, as fichas técnicas do RCZ e do Scirocco são simplesmente monótonas e mais baratas! Ah, nesta versão de 200 cv o RCZ tem uma suspensão dianteira de pivot descentrado, o que permite reduzir os efeitos do binário no volante.

A importância de ser especial
Com as suas enormes jantes de 19 polegadas, excelente tração, limites de aderência elevados e uma suspensão de afinação bem firme, o RCZ consegue curvar a velocidades muito elevadas e ser praticamente isento de subviragem. É um Peugeot com a atitude elogiada nos desportivos da marca dos anos 80 e 90 do século passado (embora suavizada), que sabe enrolar a traseira na inscrição e permite direcionar o carro em apoio através do acelerador. Aliás, esta capacidade de definir trajetórias sem mexer no volante faz do coupé Peugeot um dos exemplos de tração dianteira mais interativos, eficazes e divertidos de pilotar em circuito. Mas, ainda assim, fica bem longe do leque de opções oferecido pelo fantástico equilíbrio do GT86.

Este não precisa de uma pista, pois a combinação de excelente visibilidade, precisão, controlo, reduzidas dimensões e um limite de aderência muito progressivo dos seus Michelin Primacy HP permite diversão a baixas velocidades e em espaços reduzidos. A direção é excelente (em matéria de sensibilidade, tato e precisão é a melhor do mercado), permitindo colocar o carro e controlar as derivas de traseira com enorme naturalidade, ao passo que todos os comandos possuem uma precisão e um engrenar mecânico que separam o GT86 do resto da produção automóvel. Cada ação sobre o acelerador, travão, caixa, volante e embraiagem é acompanhada por uma reação do GT86 na proporção e medida certa. Só isto faz do Toyota um carro muito mais envolvente, comunicativo e, também, mais exigente para conduzir com suavidade ou explorar na plenitude as suas (enormes) possibilidades.

A suspensão, relativamente macia, deixa-nos sentir as transferências de peso de uma forma tão clara e cristalina que estas depressa se tornam uma das ferramentas mais poderosas, precisas e intuitivas ao serviço do condutor para alterar o equilíbrio/atitude do GT86 ao gosto/necessidade do momento. E o complemento perfeito desta suspensão de longo curso está no amortecimento muito bem calibrado, o qual digere irregularidades em plena deriva sem provocar qualquer alteração de trajetória. Por fim, o Toyota faz tudo com menos esforço e ocupando menos estrada.
Então e o Scirocco?

O Scirocco é rápido mas guloso
Perante tanto brilhantismo o VW paga o preço de ser o que está mais próximo do modelo base: é o único com quatro verdadeiros lugares mas também não desliga totalmente o ESP. Nunca proporciona uma experiência de condução tão gratificante e emocionante como o Peugeot ou o Toyota. O Scirocco é muito neutro, com a eletrónica a ajudar a limitar a subviragem na entrada em curva e o diferencial eletrónico XDS a ajudar à tração na saída. Mas é sempre o carro que tem o controlo e a margem para o “dobrar” à nossa vontade fica muito mais reduzida. Em compensação, selecionando o modo Comfort da suspensão com amortecimento pilotado DDC (opção) é o mais confortável e refinado a pisar irregulares artérias citadinas, algo com que o firme RCZ não pode competir, nem mesmo levando em consideração os excelentes bancos integrais em pele de série na versão Asphalt.

Com potências similares (entre os 200 e 210 cv) as diferenças de prestações não são marcantes, sendo mais uma questão do como que do quanto. Mesmo assim, o dois litros turbo do Scirocco destaca-se ligeiramente nas acelerações e a caixa DSG acrescenta uma facilidade de acesso a essa performance que o RCZ e GT86 não possuem. Em contrapartida, mexer na caixa é um elemento fundamental do prazer de condução.

O 1.6 THP supera o bloco VW em matéria de sonoridade (com o escape desportivo é o melhor dos três) e elasticidade, valendo a pena usar todas as suas 6750 rpm, ao passo que o Scirocco 2.0 TSI “morre” às 5500 rpm, e o 2.0 boxer do Toyota precisa de ser usado (e abusado) entre as 5000 e as 7500 rpm para sentirmos toda a energia dos 200 cv. Felizmente, a caixa montada no GT86 é um primor de rapidez e precisão (tem de ser tratada com mais decisão que a do Peugeot mas tem um tato muito mais mecânico), o que facilita e, sobretudo, incentiva o condutor nessa tarefa. É claro que tamanho empenho faz disparar os consumos, ficando estes a meio caminho entre os 15/17 l/100 km do RCZ e os 25/27 l/100 km do Scirocco no mesmo tipo de utilização.

O último é o primeiro
O Toyota GT86 é o único capaz de produzir um acontecimento de cada vez que se vira o volante, para além de possuir e proporcionar um relacionamento com a estrada e o condutor muito mais íntimo, nas perceções, e intenso, nas reações. Para ter prazer de condução é a escolha certa, sabendo que também serve para cumprir as obrigações diárias (com um sorriso nos lábios) e que não custa uma fortuna em combustível e manutenção.

O VW Scirocco é o que está mais próximo de um normal compacto, sendo, por isso, aquele que melhor se encaixa numa utilização familiar. O coupé de Palmela também é o que possui as melhores prestações, muito embora essa vantagem marginal se faça pagar com consumos excessivos e venha acompanhada do chassis menos divertido deste trio, o que lhe reduz o apelo enquanto máquina de condução. Sem ir tão fundo como o GT86 na busca do prazer de condução e no despontar de emoções, o Peugeot RCZ tem uma personalidade bem vincada e é aquele que faz mais sentido na equação financeira: soma a melhor relação prestações/consumo deste trio. Tem o preço mais convidativo, o melhor equipamento e o interior mais requintado (em pele integral na série especial Asphalt).

 


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