Este é um verdadeiro confronto VIP: Volvo “interpares”. Com o S90, a marca sueca volta a estar entre os melhores do segmento. Mas há uma diferença entre estar ao nível do Mercedes-Benz E 220 d e do Audi A6 2.0 TDI e batê-los num jogo que a dupla germânica há muito domina. Será desta que os suecos cantam vitória?

O discurso do “ou vai ou racha” que a Volvo fez durante a apresentação do decisivo XC90 parecia rodeado de enorme “dramatismo”. Mas, ao que parece, não há razões para grandes preocupações. Se o XC90 deu o mote, o novo S90 é a confirmação de que o rumo assumido pela marca sueca detida pelos chineses da Geely é o mais acertado. O problema é que há uma grande diferença entre entrar no tanque sem qualquer receio dos “tubarões” e, não só não ser predado, como passar a ser temido. É que no caso do S90, o segmento em que se insere (grandes familiares) é dominado quase por completo pelos alemães, com destaque para a Mercedes-Benz e a Audi, já que o BMW Série 5 está em fase final da carreira, aguardando substituição para breve como noticiámos na passada edição.

O E 220d ainda há pouco chegou ao mercado nacional e já é um sucesso assinalável, superando as expectativas mais otimistas da Mercedes-Benz e acumulando um tempo de espera de 3 a 6 meses. Ao volante não é difícil perceber porquê. O único ponto menos entusiasmante no novo E é mesmo o desenho, tão colado ao do Classe C que é quase impossível distingui-los sem um ponto de referência visual que permita avaliar o tamanho. De resto é difícil encontrar uma crítica digna desse nome no Classe E. Obviamente que podemos argumentar que a relação preço/equipamento não é das mais convidativas ou que o conteúdo tecnológico, em especial nos auxiliares de condução, depende muito do recurso à lista de opcionais ou que o comportamento podia ser mais assertivo e o prazer de condução mais apurado, mas, lá está, se for esse o desejo do cliente pode sempre especificar um Classe E mais à sua medida, recorrendo, nomeadamente a elementos AMG, a conjuntos de jantes/pneus mais agressivos ou à suspensão pneumática pilotada. Mas mesmo com esta configuração “convencional”, o Classe E defende com unhas e dentes os pergaminhos da marca, com uma estabilidade direcional imperturbável, uma facilidade de condução invulgar e níveis de conforto que diluem, como por magia, os quilómetros acumulados em viagem. O eficaz desenho dos bancos e a uma solidez a toda a prova são importantes neste desempenho, mas é a suspensão (nomeadamente o acerto do amortecimento) que faz a grande diferença.

O novo S90 é igualmente surpreendente, até pelo ato de coragem que representa assumir, num segmento tão formatado e pouco dado a desvarios, um caderno de encargos muito próprio. A começar logo pelo desenho que, goste-se ou não do resultado final, não deixa ninguém indiferente. Depois, dinamicamente, o S90 privilegia sem preconceitos o conforto e a facilidade de condução em detrimento da agilidade, mesmo com suspensão pilotada (pneumática atrás) e umas enormes jantes de 20” com pneus 255/35.

O interior é, também ele, o exemplo acabado da nova filosofia Volvo. Com quase todos os comandos secundários concentrados no enorme “tablet” na consola central e um painel de instrumentos totalmente digital (de série neste nível de topo Inscription) que pode ser personalizado dentro de determinados parâmetros, o S90 aposta num desenho minimalista, mas muito sofisticado. A este atributo a marca sueca associa uma qualidade geral nunca antes vista na Volvo, pelo menos nas duas últimas décadas. A unidade ensaiada via este argumento sublimado pelas aplicações em pele que cobrem quase integralmente o habitáculo, uma opção que está integrada no pack Xenium e que, apesar de onerosa (4305€) aconselhamos pelo ar requintado e verdadeiramente “especial” que acrescenta ao habitáculo. Como já é habitual na Volvo, o desenho dos bancos é sublime, tanto no conforto como no apoio que proporcionam. A habitabilidade é outro trunfo do S90, que tira partido da superior distância entre eixos e do maior comprimento para se superiorizar no espaço para as pernas atrás. O reverso da medalha está na mala que é a mais pequena das três, embora tenha a seu favor, face ao A6, o facto de os bancos serem rebatíveis de série (no A6 esta opção custa 375€).

Por falar na berlina da Audi, este A6 é a prova “viva” de que a especificação de uma unidade faz toda a diferença. A opção por uma suspensão desportiva em associação com estas jantes de 18” podia ter sido desastrosa para a relação conforto/comportamento, mas ao optar por equipar este A6 com suspensão pneumática a marca de Ingolstadt conseguiu a proeza de oferecer uma berlina praticamente tão confortável como as restantes, mas muito mais ágil e divertida de conduzir. A diferença é tal que, ao volante do A6, ficamos com a sensação de que o Audi é mais pequeno e leve do que os seus adversários, quando, pelo menos no que ao peso diz respeito, o A6 é o mais pesado dos três.

Onde o Audi não consegue evitar ser penalizado é nos detalhes que revelam a maior antiguidade do projeto, como o espaço habitável, o desenho interior ou a oferta de elementos de segurança. Até o motor 2.0 TDI, que até há bem pouco tempo, era exemplar, ressente-se da base em que está aplicado, perdendo na insonorização para o Volvo e para o Mercedes-Benz e nos consumos para este último, embora aqui o mérito recaia por inteiro no novo 2.0d da Mercedes-Benz que se assume, sem qualquer concorrente à altura, como o mais económico do segmento. A caixa de 9 velocidades também se revela decisiva já que permite circular em autoestrada a 120 km/h abaixo das 1500 rpm. Numa viagem de mais de 600 km, com uma variedade de traçados e vários quilómetros de para-arranca, acabamos com uma média de 4,7 l/100 km. Em qualquer um dos concorrentes gastaríamos, seguramente, mais 9 litros de gasóleo em igual exercício. É por esta e por outras que o Classe E continua a ser o “rei” incontestado do segmento dos grandes familiares. Mesmo que tenhamos de pagar (muito) mais para ter o mesmo equipamento da Volvo, que sejamos “obrigados” a conviver com uma certa crise de identidade (não é um C, mas também nunca chega a ser um S) e que, pelo menos com esta especificação, o Audi A6 seja muito mais giro de conduzir. E o Volvo, em que ficamos? Ainda não foi desta que o S90 bateu o Classe E, mas o empate com um dos pesos-pesados do segmento é um sinal encorajador. Se é um fã da marca sueca, não pode perder as cenas dos próximos capítulos.

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