Parcour, ou a arte do deslocamento, é a movimentação rápida entre dois pontos, quase sempre em cidade, e superando os obstáculos do ambiente circundante. Poucos automóveis serão tão eficazes nesta missão como o Peugeot 108, o Mitsubishi Space Star ou o VW Up.

Deslocam-se em ambiente urbano com uma agilidade desconcertante, não se atemorizando com os obstáculos, estacionando em qualquer gaveto e gastando o mínimo possível, os citadinos movem-se nas grandes urbes como peixe na água. E se, até há pouco tempo, podiam obrigar a sérios compromissos no espaço habitável, na capacidade da mala ou até no conforto, hoje oferecem bagageiras dignas desse nome (em muitos casos com dimensões equiparáveis a alguns utilitários) e níveis de segurança e requinte que fariam inveja a um pequeno familiar de há uma década. O Mitsubishi Space Star é um bom exemplo do que acabámos de referir. Apesar de custar pouco mais de 11 mil euros (preço promocional para os clientes que não optarem pelo financiamento. Para os que o fizerem, o preço promocional baixa para os 10 750€), o citadino japonês oferece uma lista de equipamento que deixaria um BMW Série 3 roído de inveja. Só para enumerar os mais importantes, o Space Star conta com ar condicionado automático, cruise control, sensores de chuva e de luz, volante multifunções, rádio-CD e MP3 e sistema de acesso e ignição sem chave. O novo 108 e até o mais caro Up não disponibilizam uma tão infindável lista de equipamento, mas oferecem um argumento que o Space Star  não tem: charme. Pode ou não gostar-se do aspeto quase rococó do Peugeot, com as luzes diurnas em LED, os faróis de 308 à escala e os farolins traseiros enormes (embora com um curioso efeito noturno), ou do look tipicamente germânico, mas engraçado do Up, mas são os dois facilmente identificáveis no trânsito e, melhor ainda, imediatamente associados às marcas de que derivam. O Mitsubishi parece um clone de tantos outros citadinos japoneses/coreanos que facilmente se diluem no restante tráfego. O ano/modelo 2015 ainda trouxe algumas ligeiras alterações estéticas ao Space Star, como os piscas nos retrovisores, mas nada que nos faça olhar duas vezes.

Gostos não se discutem

Como não pontuamos um elemento tão subjetivo como a estética, vamos cingirmo-nos ao que, objetivamente, podemos avaliar.

É curioso que sendo o Up oriundo de uma marca como a VW, seja o único que não dispõe de cortinas insufláveis. É verdade que possui airbags laterais de cabeça e torax, mas estes não protegem a cabeça dos ocupantes do banco traseiro...

Por falar em passageiros, outra das vantagens do Space Star é que é o único homologado para cinco pessoas. Se conseguimos “enfiar” três no banco traseiro é outra conversa, mas a verdade é que, fruto das maiores dimensões exteriores, o Mitsubishi é o mais habitável dos três. O Up e o 108 estão limitados a quatro ocupantes, mas até aqui há diferenças. A discrepância em comprimento entre os dois é quase marginal, embora o VW tenha uma maior distância entre eixos, o que se revela decisivo no espaço para as pernas atrás e até na capacidade da mala. O “defeito” do Up é que a mala é muito funda, dificultando a colocação e, especialmente, a remoção de objetos do piso da bagageira. É verdade que ninguém se lembra de fazer a mudança para a casa nova com um citadino, mas com capacidades anunciadas que superam facilmente os 200 litros, há muito que as propostas deste segmento não se limitam a transportar exclusivamente as compras diárias.

Aliás, com algum jeito, e sacrifício dos intervenientes, é perfeitamente possível fazer um fim de semana com amigos a bordo de um destes utilitários. Até porque os motores, apesar da configuração de três cilindros e da parca cilindrada, são bem mais enérgicos do que seria de supor. Até o mais “fraquinho” 108 se mexe com alguma alegria, desde que mantenha o taquímetros acima das 3000 rpm e, de preferência, em mudanças mais baixas, já que a caixa longuíssima acaba por diluir o fôlego dos 68 cv e traí-lo nas recuperações. O Up segue-se na “escalada” de potências e, com uma caixa bem escalonada e uma boa disponibilidade a baixos regimes, consegue a proeza de surpreender o mais leve e potente Mitsubishi nas recuperações. Já nas acelerações, o Space Star, com um motor maior (1.2) e mais potente (80 cv), não dá qualquer hipótese aos seus adversários. No sentido inverso, o 108 mostra-se o mais comedido dos três nos consumos, embora a vantagem face ao Up não chegue sequer para atribuirmos uma diferença pontual. Mesmo o Space Star está longe de ser um “glutão”, com uma média ponderada muito semelhante à dos seus adversários. A única razão para a diferença pontual é que em cidade, ambiente em que os citadinos se movem habitualmente, o Mitsubishi é o único que passa dos 6 l/100 km e gasta mais 0,5 l/100 km do que o frugal Peugeot. Isto porque, ao contrário da unidade considerada no teste da semana (edição 1291), este 108 estava equipado com sistema start/stop, um exclusivo das versões e-VTI. A marca de Sochaux anuncia uma vantagem de 0,5 l/100 km deste face ao VTI “normal” mas, segundo as nossas medições, a diferença ficou-se pelos 0,2 l/100 km. Valor que pode parecer uma magra recompensa para os 250€ gastos (o 1.0 e-VTI é mais caro do que o VTi), mas que dilatou aquela que é, seguramente, a vantagem mais “palpável” para quem optar pelo 108: a economia de combustível. O Up gasta (pouco) mais, é ligeiramente mais caro e nem sequer é tão bem equipado, mas é qualitativamente mais apurado, é mais espaçoso e bem mais célere do que Peugeot. Mesmo no comportamento, o Up não é tão ágil como 108 (o único que permite desligar o ESP...), mas a direção é mais precisa e as reações sempre progressivas, além de travar melhor. O Space Star é pouco entusiasmante de conduzir, mesmo sendo o mais rápido, a travagem é a pior do trio e a qualidade interior é mediana, mas só a imbatível  relação preço/equipamento é responsável por 11 pontos de diferença face ao Up, uma vantagem que se revelou decisiva.

 

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