A Peugeot está confiante que o 308 pode dominar o segmento dos pequenos familiares e lançar o pânico entre a concorrência, mas o Golf, o Focus e o Astra não se deixam abater tão facilmente.

Que a indústria automóvel francesa atravessa um momento menos próspero já é do conhecimento de todos, mas isso não quer (nem pode) dizer que as marcas vão baixar os braços. A Peugeot parece apostada em contrariar a tendência e traçou um objetivo ambicioso: bater a concorrência nos pequenos familiares, o mais competitivo e representativo segmento do mercado europeu. A arma escolhida é o novo 308 e os alvos a abater são os tradicionais dominadores desta franja de mercado: VW Golf, Ford Focus e Opel Astra. O Renault Mégane também tem dado cartas (especialmente entre as frotas e quase sempre com a versão carrinha), mas aguarda a chegada do restyling desvendado no salão de Frankfurt.

Escolhidos os oponentes, restava decidir as motorizações. Dada a tradicional apetência dos consumidores lusos por motores Diesel, a opção só poderia passar pelos mais vendidos das respetivas gamas. No caso do 308 1.6 e-HDI, a versão de 115 cv deverá continuar a reunir a esmagadora maioria das preferências, o que acabou por condicionar todos os restantes. Ainda assim, enquanto não chega o Golf 1.6 TDI Bluemotion de 110 cv ou o Astra 1.6 CDTI, o 1.6 TDI de 105 cv e o 1.7 CDTI de 130 cv são, efetivamente, os mais vendidos das respetivas gamas. No caso do Focus a dúvida seria entre o 1.6 TDCi de 105 cv e o de 115 cv, mas o segundo continua, ainda assim, a ser a escolha da maioria dos clientes.

Alinhados os concorrentes, o 308 salta à vista. Não só pelo vermelho sangue da unidade ensaiada, mas porque as linhas são, inegavelmente, elegantes. Não primam pelo arrojo, até porque o cliente tipo deste segmento (seja um pai de família ou um quadro de uma empresa) é tradicionalmente “conservador”, mas há pormenores que distinguem o Peugeot dos demais, como a solução encontrada para os afilados faróis dianteiros. As impressionantes jantes de 18” também chamam a atenção, especialmente quando comparadas com as sóbrias jantes de 16” do Golf, mas, acredite, funcionam melhor no configurador da marca ou nas fotos de catálogo do que numa utilização diária. O que nos leva à primeira surpresa do comparativo. Durante anos habituámo-nos a associar os automóveis franceses ao conforto e ao comportamento. O 308 não é uma desilusão completa, mas as referidas jantes e um amortecimento menos adaptado a esta solução não colhem frutos, nem no conforto, nem no comportamento. Na nossa experiência em França no decurso da apresentação internacional, os 308 com jantes mais pequenas (e mesmo com pneus de baixo atrito) resultam mais equilibradas. O Focus não precisa de jantes gigantes para se impor no comportamento, sendo o mais ágil e eficaz entre os presentes, embora a suspensão traseira independente (o único com esta solução) também não seja alheia a este fenómeno. E isto sem prejudicar o conforto de rolamento, um dos mais apurados do quarteto. O Golf é outro bom exemplo de uma eficaz relação entre o conforto e o comportamento. Não é tão ágil como o Focus, mas rivaliza com a eficácia do Astra e oferece uma solidez imbatível e um conforto referencial. O Astra está praticamente ao mesmo nível, mas acaba prejudicado por uns bancos mais rijos e uma suspensão ligeiramente mais firme em mau piso. De referir que tanto o Golf como o Astra oferecem em opção suspensões pilotadas, item que faria pender a balança dinâmica a seu favor.

Se assim fosse, o Opel até teria alguma vantagem adicional, já que o 1.7 CDTI de 130 cv, apesar de ruidoso e pouco refinado, garante prestações acima da média. O Peugeot também não fica mal na fotografia, garantindo prestações próximas, apesar do aparente handicap de potência (115 cv) e binário (270 Nm). A outra arma do 308 1.6 e-HDI é que o motor é bastante linear, económico e conta com os préstimos do melhor sistema start/stop do mercado.

Por falar em economia, o Golf continua ser o mais frugal, mas à conta de um escalonamento da caixa de cinco velocidades que prejudica a utilização em estrada. Mesmo em zonas rápidas, é quase inevitável ter de recorrer à caixa sempre que nos deparamos com uma adversidade geográfica. Já para não falar que, mesmo em cidade, o 1.6 TDI não é dos mais expeditos a baixos regimes. No campo oposto, o Focus é o mais gastador dos três, sem com isso obter nenhuma vantagem nas prestações ou, como é óbvio, nas emissões. Os intervalos de manutenção preconizados pela Ford também são os mais curtos dos quatro (20 000 km), em especial agora que a Peugeot alargou os do 1.6 HDI para os 25 000 km e a Opel e VW mantêm os habituais 30 000 km. Em compensação, e fruto de uma agressiva política comercial de descontos, o Focus é, de longe, o mais barato dos três. A Opel também aposta numa arrojada política de descontos, embora não seja tão “agressiva” como a da Ford. Já o Golf não tira partido de nenhum apoio à aquisição o que justifica uma relação preço/equipamento menos convidativa. O Peugeot tem em vigor, até ao fim de semana de lançamento (19 e 20 de Outubro), uma campanha que consiste no upgrade sem custos do nível de equipamento escolhido, mas apenas para quem fizer a pré-reserva online. Esta ausência de uma política de descontos também ajuda a explicar o preço mais elevado do 308, mas o principal motivo para o fosso de sete mil euros cavado entre o 308 e o Focus prende-se com o nível de equipamento do Peugeot ensaiado. Basicamente, o 308 Allure que vê nas fotos é um mostruário rolante da lista de opcionais. Dos bancos em pele aquecidos com comandos elétricos e massagem, aos sistemas de apoio à condução, passando pelas jantes de 18” ou o sistema de navegação com écran sensível ao tato, o habitáculo do 308 é um verdadeiro prazer para os sentidos. Só não o é mais porque alguns materiais (nomeadamente os que revestem a metade inferior do tablier e das portas) não estão ao nível do esperado para um automóvel que desafia o Golf.

O espaço também não é tão abundante como gostaríamos. A largura atrás é a maior dos quatro, mas o comprimento para as pernas é o mais curto e a altura no banco traseiro está ligeiramente abaixo (895 mm) do valor que consideramos confortável (900 mm). Poderiamos ser levados a pensar que, pelo facto de o 308 ser o mais pequeno dos quatro, o espaço e a mala seriam prejudicados, mas a Peugeot sentiu-se tentada a valorizar a bagageira em detrimento da habitabilidade. E a verdade é que consegue destacar-se nesse item, já que o 308 é o mais generoso na capacidade da mala.

Faltou um bocadinho...

Feitas as contas, ainda não foi desta que o Golf perdeu o título. Se é uma pessoa preocupada com questões como a economia de utilização, o valor de retoma e pretende um automóvel familiar sem grandes máculas, o Golf continua a dar cartas. Se, por outro lado, está farto de ter um carro igual ao dos seus colegas, valoriza o efeito novidade e dá importância à elegância das linhas e do interior, fica melhor servido com um 308. Até porque continua a ser um automóvel económico e perfeitamente capaz de cumprir as obrigações familiares. Só faça um favor a si mesmo, especifique outras jantes. Os vizinhos vão ficar menos impressionados, mas lembre-se que vai passar mais tempo a conduzir o 308 do que a olhar para ele.

 

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