Com a temperatura da campanha ao rubro, o nosso colaborador “Boinas” (Luis Filipe Borges) prefere votar à distância – é mais seguro – e entregar o volante do Mazda 6 ao seu amigo e também humorista António Raminhos que se deixou contagiar pela onda eleitoral e sentir-se um verdadeiro chefe de Estado. Mas nisto de veículos com ares de carro do Governo tem muito que se lhe diga…

De jantes reluzentes e raiadas. O vermelho dá-lhe um toque de agressividade. Impões respeito. Por isso, cheguei, abri a porta e sentei-me no banco de trás. Um carro como o Mazda 6 Sedan 2.2 é para ter motorista. E para quem vai atrás tem de ser, no mínimo, um verdadeiro Chefe de Estado.

Por momentos, andar pelas ruas de Lisboa é imaginar que somos “donos” de um país... melhor, que somos o Rei. Porque Rei tem coroa e tem pompa e circunstância e tem um castelo e pode ter uma côrte e amantes com fartura (pelos menos na Idade Média era assim). Ser Chefe de Estado é só ter dores de cabeça, mais ainda se tiver amantes.

Na verdade, o Mazda dá ares de carro do Governo pela sua imponência, mas essa foi sempre uma questão que incomodou grande parte dos portugueses. Os milhões gastos em carros de luxo e alta cilindrada. E “eles” sentados lá atrás. É que nem se dão ao luxo de conduzir ou de levar viatura própria. Fico muitas vezes com a ideia de que os governantes portugueses aceleravam na estrada na esperança dos problemas desaparecerem mais depressa. Dava muito a imagem daquele nosso vizinho que não tinha onde cair morto, mas andava de BMW.

Agora a história é um pouco diferente. A frota foi reduzida e a contenção da despesa obriga a que os serviços públicos utilizem gamas mais baixas e até carros apreendidos pelas autoridades. O que traz alguma ironia: ver um governante num carro que foi usado para assaltos a caminho de uma reunião para aumentar os cortes sobre o povo.

Mas porque não andar de transportes públicos? Apesar de não verem um Metro há 20 anos, ao contrário do que os próprios possam pensar, nenhum governante seria incomodado, maltratado ou, sequer assediado. Primeiro, porque o povo é sereno, depois porque a reação da maior parte das pessoas seria esta:

- Aquele é o... É? O Passos Coelho?

- Naaaaaa... No Metro?

- Hahahah é tal e qual! Olha no outro dia vi um individuo que era igual ao Fernando Mendes!

Sendo assim, cada fação política podia usar o seu próprio tipo de carro. Quem estivesse no Governo teria que usar carros com a data da última lei que tivessem criado em benefício do povo. Continuaríamos a ter um país de treta, mas com uma bela frota de clássicos de fazer inveja a muitos. Os líderes da oposição é simples: sempre com um modelo contrário ao do Governo. Nada do que ali vem é bom. Comunistas, obviamente, com carroças e os Verdes a pé. Nem sequer tinham direito a automóveis elétricos. Talvez fosse um modo da Heloísa Apolónia chegar cansada ao Parlamento e não gritar tanto nas sessões. Não sei se alguma destas medidas funcionaria, mas ao menos seria mais divertido.

 

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