Faço o que posso para ser Pan, Peter Pan e encanto-me pelos cabrios porque, dentro da minha cabeça, retiram-me anos ao aspecto exterior.

É inegável o encantamento deste vosso escriba, amigo mensal de há meia dúzia de anos, por cabrios. ‘Boys will be boys’, diz o axioma, dizem canções, dizem mulheres, e algo tantas vezes repetido só pode estar bem mergulhado numa piscina de verdade verdadinha cheia (perdoem a metáfora, foi de apanhar muito sol na chimónia por não recolher a capota). Contudo, e embora a psicologia e a filosofia – de mãos dadas – expliquem e bem como cada vazio tem absolutamente de ser preenchido, não creio que a minha paixão descapotável venha daí. Ora note-se, como é o caso do automóvel gentilmente depositado ao meu cuidado este mês pelo Autohoje, o número razoável de brinquedos afins por preços módicos. Não. Honestamente não preciso dum carro ao custo de aprazíveis T2 para me sentir mais isto ou aquilo. Basta-me, alegremente, um cabrio despretensioso, fiável, entretido folgazão como este delicioso Mazda MX-5 Zen (edição limitada do que já se pode considerar um clássico). Além do mais, dúvidas houvessem, o carro efectivamente meu, do dia-a-dia, é um Hyundai – algo tão próximo do glamour como a localidade do Barreiro. Talvez padeça, no fundo, duma precoce crise de meia-idade: julgo ter começado aos 18 anos, maioridade recém-adquirida, quando – e provavelmente devido a uma pilosidade que insistia em habitar o tecto do meu lábio superior – uma senhora no autocarro recomendou ao filhote, dirigindo-se a mim, “deixa o senhor passar”. O susto de ter sido primeiramente tratado por Senhor, assim, sem mais nem muito menos aviso prévio, encarcerou-se em mim com a fúria dum ferro em brasa em couro de vaca. E desde então faço o que posso para ser Pan, Peter Pan; e não Bond, James Bond. Amo que me atribuam, regral geral, menos 2 ou 3 anos do que aqueles carimbados no B.I. e, assim raciocinando, caminhar caminhando, e o importante não é partir nem chegar, é navegar, detenho-me perante esta epifania (epifânia, como diria Jorge Jesus): encanto-me pelos cabrios porque, dentro da minha cabeça, retiram-me anos ao aspecto exterior. Brinco com eles como o adulto adiado que insisto em ser, acelerando para destinos que são só etapas, e empatando a vida em sorrisos de adolescente, cabelos já grisalhos ao vento, escaldões benfazejos e curvas apertadas de mulheres divertidas. É um Carnaval interior cujos símbolos me devolvem à infância, um teletransporte mental assumido cada vez que baixo uma mudança e sinto as costas empurradas por um bólide encantador. Este chama-se ZEN? Nunca fez tanto sentido. 

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