Depois de guiar o Clio RS, percebo agora a fidelidade familiar de sempre para com a Renault. É uma marca que, desde o redondinho Renault 5, encantava a minha infância.

A minha mãe, confessa-me pelo telefone, tem tantas saudades de conduzir – embora o faça com a parcimónia dum monge tibetano – que espreita uma vez por dia desde a janela, durante meia hora, o Mégane estacionado à porta de casa por imposição legal. Mãe, sabe o leitor, há só uma: e Maria de Lurdes resolveu arcar com a responsabilidade duma pena imputada, e bem, ao filho mais velho. Parece que, na última vez que fui à ilha, os radares da Via Rápida que une Angra do Heroísmo à Praia da Vitória (as duas cidades terceirenses) entraram enfim em funcionamento. O escriba, ocupado a transportar amigos continentais e desejoso que conhecessem o mais possível do seu cantinho açoriano, violou uns limites valentes ao volante do carro dos pais (apenas conduzido pela progenitora - uma vez que a visão do pai não lhe permite distinguir um rinoceronte duma retro-escavadora, ainda que há distância de palmo e meio). Curioso é isto transportar o escriba para uma memória adolescente, quando ele e o mano ficavam a fantasiar com o primeiro carro (o primeiro Clio 1.0) estacionado durante meses na garagem à espera de ordem de soltura e que a Mãe, tão eficaz no exame de código (100%), se desenvencilhasse enfim do exame de condução (6ª, talvez 7ª tentativa). O carrito não ganhava pó pois o prevenido Pai puxava-lhe o lustro, e ainda somava brilho adicional graças aos sonhos dos rebentos – na nossa fusão de cérebros havia a inconfessada esperança de que aquele utilitário humilde e honrado possuísse a alma do mítico DeLorean de “Regresso ao Futuro”. Irónico, todavia, é que não conduz a mãe – enquanto não acaba a pena de dois meses - nem conduz o filhote, recém-aterrado em Nova York, a cidade que sempre quis conhecer. “A” cidade. Mas vem a que propósito todo este intróito, confunde-se o amável leitor – porventura já habituado a estes desvarios do autor da croniqueta? Ao facto de o meu último poiso como condutor, mesmo antes de me entregar nas mãos dum comandante TAP, ter sido ao volante do mais fresquinho Clio, versão 200 cvs, jantes racing, duma cor insólita mas carismática – algo entre a luminescência do Eldorado perseguido pelos ‘conquistadores’ castelhanos e a diarreia eventualmente produzida por um bebé de Chernobyl. Não que esteja a ver a minha mãe a bater recordes de velocidade nas próximas décadas – apesar da assumida ânsia em voltar à estrada – mas percebo agora a fidelidade familiar de sempre para com a Renault. É uma marca que, desde o redondinho Renault 5 que encantava a minha infância (e antes desse o quadradinho homónimo), passando pelo primeiro Clio dos pobrezinhos até este último touro entretido, tem de tudo como o Boca Doce: “é bom é bom é, diz o avô e diz a bebé”. Quem me dera era ter agora um qualquer modelo para rasgar Manhattan e pôr as culpas na Maria de Lurdes.

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